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quarta-feira, 30 de junho de 2010

A favela em outro contexto

A palavra “favela” tem uma conotação negativa no universo semântico do cotidiano brasileiro. Dizemos que algo é ‘favelado’,quando desejamos associá-lo à ideia de pobreza, desorganização,feiura, mau gosto ou má educação. Em outros termos, “favelado” é tudo aquilo que rejeitamos pela falta de prosperidade, elegância, ordem, beleza ou de polidez, entre outros aspectos os quais são ressaltadas as ausências.Em síntese, podemos dizer que o uso dessa palavra indica, antes de tudo, um julgamento de valor.

Hoje, o termo comunidade tem sido muito usado, deixando de lado a palavra favela, ainda sim, trás consigo o mesmo valor semântico. Quando se fala que um sujeito é de uma comunidade, pensamos logo que veio da favela.

Apesar de ser geralmente mostrado a partir de um “olhar” externo e, eventualmente, preconceituoso, a favela mostra-se diferente deste olhar.É comum ouvirmos que os moradores da favela são desprovidos de cultura, mas me pergunto: o que é cultura? Segundo José Márcio Barros, antropólogo e Diretor de Arte e Cultura da PUC Minas, “Cultura é tudo aquilo que é resultado da vida social, da aprendizagem, tudo aquilo que você adquire da sociedade é cultura”.

A favela é rica culturalmente. Faço um comparativo entre um bairro “comum” e a favela. Raramente podemos ver movimentos sociais, ações culturais que mobilizem a comunidade em prol dos moradores como enxergamos na favela.

A música, a dança, as artes plásticas, todas as manifestações artísticas encontradas nas vilas e favelas, o que inclui o funk, o pagode, hip hop e o rap, fazem parte da produção cultural local, assim como as manifestações encontradas nos demais lugares fazem parte da cultura. No entanto, cultura não se restringe a arte, mas abrange diversos campos sociais. Caminhar, trabalhar, namorar, casar, estudar, cozinhar, tudo isto é cultura. “Essa forma de reduzir a cultura à arte, e mais do que isso, às belas artes é excludente no sentido que elimina uma série de outras manifestações, formas de pensar o mundo e os sujeitos. Os agentes dessas formas de pensar, agir e estar no mundo são excluídos, numa postura discriminatória”, explica José Márcio Barros.

Pensar cultura da forma como adverte José Márcio Barros, pode nos levar à um comportamento preconceituoso, descaracterizando, assim, a favela, em um caminho que nos leva a concluir que lá só tem pobreza e violência.Pelo contrário, a favela tem muita riqueza cultural. Diferente do que é falado, podemos notar que mesmo com um cenário contrário, os moradores conseguem se colocar como cidadãos e exercer seu papel na sociedade. Com poucos recursos, mas com muita dedicação.

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